Local de passagem

Sempre me achei deslocado, desnecessário. Às vezes desnecessário a mim mesmo.  
Sempre fui oásis. Estou no meio do deserto e sempre ajudo alguém a ter descanso, recuperar forças e seguir em frente.   Nunca me senti casa e nunca fui abrigo. Talvez minhas dependências nem suportem o fardo de ser morada e eu não tenha colunas bem calculadas para evitar futuros desabamentos.  

Grupos de amigos sempre seguiram bem sem mim. Grupinhos de escola também. Dos relacionamentos amorosos voláteis, a mesma situação. Na família também não é diferente. 

Sou local de passagem, nunca local de destino. Nunca pleiteei uma mudança de status. Não acho digno pedir isso para alguém. Nunca achei.  

Sigo com tarefas pela metade, sonhos que terminam no primeiro capítulo ou que, por insistência da minha parte, seguem com roteiros mortos e sem rumo, apenas para somar os capítulos e serem compilados. Afinal, preciso ter algo pra apresentar, nem que seja esse compilado sem apelo, que não tenho orgulho, mas é um autêntico representante da minha falta de interesse.  

Eu não renderia uma novela, uma série, ou um livro. Sou folheto de frente e verso. Queria ter mais páginas, mas vim assim de fábrica. 

Metas, objetivos, amanhã. Sempre achei e acho tudo isso muito distante. Minha cabeça ferve.  Passo dos trinta, com esposa, filhos. Me acho egoísta. Tenho certeza que sou.   
Minha alma é difícil de ser domesticada. Já tentei de tantas formas. Ela se alimenta de paixões. Não em uma grande tigela ou coisa do tipo, mas de pequenas porções.  

Perco o sono, tenho um bolo na barriga que cresceu. A copa dele chega até minha garganta. Vivo sentimentos que não quero ter, sou aquilo que não quero ser e repito minhas frustrações diariamente. Elas batem ponto, não são pontuais. Chegam a qualquer hora, sem qualquer cerimônia. Por vezes tenho vontade de gritar, chorar, ficar um mês no mato em contato comigo mesmo, saber o limite da minha alma. Por quanto tempo sem paixões ela poderia viver?  

Não é justo. Não sou justo.   
Tenho medo de pôr tudo a perder, pra viver errante, seguir em frente. Sem rota, sem endereço, apenas pulsando, existindo, coexistindo.  Na minha natureza de banco de rodoviária, onde todos passam por mim, mas seguem seus rumos enquanto fico aqui. 

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