Sobre rios e vozes

Enquanto todos à minha volta mergulhavam, eu, no máximo molhava os meus pés. Até o momento em que julguei que nem isso valeria o meu esforço e me recusei a por os pés na água.

Às margens do rio ouvi palavras, cochichos que eu queria entender, cânticos que há muito não faziam parte de mim por terem sido removidos cirurgicamente. De tudo o que ou ouvi, a música tinha maior domínio sobre mim. Minha carne tremia, e , em espasmos, movimentos involuntários, acompanhava as batidas com as mãos, pés e cabeça. Não via mais ninguém do meu grupo, que perdeu pé do fundo e fluiu na correnteza. 

A voz não era a do Criador, mas eu já a conhecia. Achava, erroneamente, que tinha se apartado de mim. Pelas minhas escolhas, pela minha nova identidade, por conhecer de onde vim e porque estou aqui. Tomamos rumos opostos, mas a voz sabe do que gosto. 

Uma força que eu já julgava por conta própria ter extinto, dominado e extirpado, toma meu corpo como trepadeira. A voz que eu ouvia não era a do Criador. Fui tomado dos pés à cabeça, envolto em galhos e raízes que se fixaram em meus sonhos e na minha carne para se alimentar. Se apossou do meu sistema nervoso. 

Tive meu baú revirado, memórias de prazer e felicidade foram bagunçadas. Todas no chão. Retratos amarelados que um dia já estiveram em alguma prateleira. Achei que tinha jogado tudo isso fora. Não lembrava dessa caixa que ficou. 

Sentimentos confusos , agora reclusos. Muitos com capacidade destrutiva da ordem dos megatons , das mais variadas formas, cores , sabores e tons. 

Estou me dando conta, mas sinto que talvez seja tarde. Vontade de desistir, vontade de correr, vontade de anular. Vontades e mais vontades. Seriam todas minhas de fato? 

De todos os membros amarrados, ficou livre o braço direito. Não sei se tenho direito de levantá-lo para pedir socorro, mas uma voz fraquinha manda eu tentar de novo. Levanto o braço novamente, deixo estendido. Acho que agora tudo fez sentido. 

A voz fraca ganha força. Tenho a plena certeza de que está no meu DNA. Do sopro de vida, do sangue, da entrega. Aos meus ouvidos Ele vem e diz: “Não se entrega”. 

Há um elo de Pai, há um elo de sangue, um elo pela Graça, que de graça me compra, que de graça rasga toda escrita de dívida, que de graça me oferece vida, ainda que eu não caminhe por verdes campos de oliva. 

Não se trata de molhar os pés, se molhar, muito menos nadar. É sobre confiar em quem fez a correnteza.

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